O que é que a Europa vai vender?

image “Ao fim de tantos anos nesta profissão de falar, tenho hoje um sentimento de responsabilidade” – começou por dizer o  Prof. Daniel Bessa na sua intervenção no XXVI Seminário de Plásticos. “Durante anos, todos dissemos que o Dr. Medina Carreira era ‘tremendista’ e anunciava desgraças que nunca aconteciam. Pois bem, o dia em que essas desgraças aconteceram chegou. Crises, altos e baixos, são normais no capitalismo. Já passámos por 25 ou 30 crises. Mas pior do que esta, só a 29-33. Estamos longe dessa grande crise, mas, com excepção dessa, esta é a mais grave de todas”.

“Portugal não sabe o que é crescer desde 2000” – afirmou o professor. “Esta crise é uma crise europeia e americana, mas não é uma crise mundial. A Ásia tem taxas de crescimento de 8 a 10%. No Brasil, deixou-se de falar de crise. A maior parte da população mundial já saiu da crise”.

O que é que a Europa vai vender? Como é que a Europa vai recuperar desta situação de endividamento, de baixa competitividade e de crescimento muito reduzido?

“Só  queda das exportações para Espanha representa 1,7% do PIB. Angola é outra história insustentável. Portanto, Portugal vai crescer pouco ou nada. Será uma má notícia? Será, seguramente, para quem tem quotas muito elevadas no mercado interno. Para as empresas que tiverem quotas de mercado reduzidas, o problema não é falta de crescimento do mercado, mas a competitividade. Mesmo no mercado espanhol, que também está em dificuldades, há empresas que estão a ganhar quota de mercado”.

No entanto, “o nosso sistema bancário não vai ter condições para nos financiar” – disse o Prof. Daniel Bessa. “A pior notícia não está nas contas públicas, mas no nosso sistema bancário. Como é que foi possível Portugal endividar-se à velocidade de 2 milhões de euros por ano e como é que foi possível que os nossos políticos convivessem com isso sem reagir? Afinal o Prof.. Medina Carreira tinha razão, sempre teve razão! Portanto, para além do Estado, temos um défice na nossa sociedade”.

Segundo o Prof. Daniel Bessa, é necessário que o Estado e as grandes empresas procurem financiar-se no mercado externo, para que o sistema bancário possa financiar as pequenas e médias empresas e para que estas possam ganhar quota. “A Europa está aflita porque o euro está a cair, mas essa é uma história mal contada. Precisamos de ter uma ideia de longo prazo e de saber lidar com a volatilidade. Nesse contexto, a descida do euro é uma descida bendita!”.