À mercê das decisões políticas

imageComo responder com sucesso aos desafios e obstáculos colocados pela crise? A pergunta este implícita no convite que a APIP dirigiu ao Prof. Doutor José Neves Adelino para participar como orador no XXVII SEMINÁRIO DE PLÁSTICOS.

"As empresas portuguesas precisam de crescer. Quanto ao que vai acontecer, não faço a mínima ideia" – disse o Professor.  A necessidade de crescer é uma opinião unânime, tal como a inovação ou o empreendedorismo. No entanto, em seis anos, a COTEC gerou 3 empresas, 3 projectos de inovação… O empreendedorismo não se confunde com a criação de muitas empresas. “Quando se assiste à proliferação das empresas, isso não é empreendedorismo, é falta de bons empregos”.

"A situação das empresas não resulta da economia – está exclusivamente nas mãos dos políticos. Nada podemos fazer em termos económicos. Dramaticamente, estamos à mercê das decisões políticas".

Contas simples
"Vamos imaginar que a taxa de juro razoável para Portugal anda pelos 6%. Vamos imaginar que a dívida pública ronda os 130% do PIB, contando com os transportes e a saúde. Vamos imaginar que conseguimos crescer 4% ao ano. As contas, feitas à mão, são: 130% vezes 6% dá 7,8% ao ano, menos 4% ficam 3,8% que é o superavit que o nosso Estado tem que gerar para não aumentar a dívida. Algo impossível… O cenário é passarmos mais vinte ou trinta anos e ficarmos com os mesmos 130% do PIB em dívida pública."
Moral da história: para além de um determinado nível de endividamento, deixa de haver crescimento.

"Os 78 mil milhões do resgate negociado com a "troika" não chegam" – disse o Professor – "já sabíamos que Portugal precisava pelo menos de 120 mil milhões".

Os 4 mil milhões que os bancos portugueses vão receber na sequência do último acordo europeu, nem um cêntimo vai ser emprestado às empesas – referiu o Professor. “Não há um problema de capital, há um problema de liquidez". Mas os bancos só devem cortar o crédito às empresas que estão bem e que aguentam, em vez de cortar o crédito a empesas que estão em dificuldades. Se cortarem o crédito às empresas em dificuldades, no dia seguinte vão ter que reconhecer o incobrável”.

"Nenhum país aguenta 10 anos de aumentos de impostos e chegar ao fim apenas para estabilizar a dívida. A solução é a emigração em massa e é provável que ela aconteça. Podemos voltar às bidonvilles… Este cenário não é possível, não é sustentável. Pessimismo a mais bloqueia. A solução está em não agir de forma isolada. O associativismo tem que ser levado muito a sério, muito para além de tudo aquilo que já fizeram. os senhores têm que se ligar. Não têm outra saída".

"Estratégia não é acrescentar um pouco mais do mesmo, e continuar a agir como se o mundo estivesse igual. Todas as empresas que apostaram apenas no mercado interno estão numa situação dramática. As que apostaram no mercado externo, estão melhor. É necessário repensar tudo: as geografias, o pricing, os segmentos de mercado, as tecnologias, etc."

O Prof. Doutor José Neves Adelino é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Para além da actividade docente, tem uma extensa actividade como gestor não executivo em empresas de sectores tão diversificados como cimentos, banca, energia, distribuição, telecomunicações, etc.