O estado em que estamos. Há esperança?

​Para encerrar o primeiro dia de trabalhos, o XXXII Seminário de Plásticos contou com os comentários de José Gomes Ferreira, editor de economia  comentador da SIC. Face ao tema que lhe foi colocado, José Gomes Ferreira começou por fazer uma síntese da evolução recente do contexto político e da situação económica. Deixando transparecer uma posição cética e distanciada, começou por considerar que Portugal é viável… se fizermos as coisas certas.

Apesar dos sinais que justificam o otimismo do primeiro-ministro, há coisas que ainda não estão resolvidas – as reformas estruturais. 

Entre os aspetos positivos, a estabilidade política e o cumprimento das regras do tratado orçamental, que José Gomes Ferreira considera como “austeridade de esquerda”. O governo manteve os impostos agravados pelo governo anterior e criou receitas fiscais novas. Como fragilidades, referiu o risco de se reverter a condição de saída da situação de defice excessivo, em 2017. 

O cenário de crescimento a 2 ou 3% não se atingiu. Por outro lado, não se recuperou a confiança dos investidores. A descida do desemprego abrandou. Por conseguinte, não podemos dizer que a crise passou. É certo que há dificuldades externas, como a crise em Angola, Venezuela, etc., mas tambem há fatores muito favoráveis, como os juros baixos, a baixa do preço do petroleo, etc..

O serviço da dívida pesa 4,5% do PIB. É o peso mais elevado da Europa, mesmo acima da Grécia.Todos os anos, Portugal necessita de ir ao mercado buscar cerca de 40 mil milhões de euros para pagar os juros e fazer o roulement da divida.Cerca de 20% do PIB. É um grande obstáculo ao crescimento. A soma da dívida pública, da dívida dos privados e da dívida das empresas representa quatro vezes o valor do PIB.

Em Portugal, as empresas continuam a necessitar de crédito e os bancos continuam a dizer que não há projetos interessantes. Na opinião de Jose Gomes Ferreira, deveria existir um shortcut entre o financiamento e a economia. Era a ideia do “banco de fomento”, mas foi sabotada pelos bancos, que querem intermediar, ganhar comissoes e aplicar o dinheiro noutras operações. Continua a haver pouco dinheiro para as empresas que necessitam de se capitalizar e o governo deveria agir para corrigir esta situação, que continua a ser um dos grandes obstáculos ao crescimento.

Outro obstáculo é a dificudade de mudar a atitude em relação aos fundos comunitários. Obras sobredimensionadas ou desnecessárias, por exemplo.

As “red tapes”, expressão americana para a burocracia e para os licenciamentos, continua a ser um obstáculo. O simplex resultou bem, mas continua a ser complicado criar uma empresa de raiz e conseguir que entre em funcionamento. E os empresários não reclamam, porque temem outras consequências negativas. Isto obriga a refletir sobre a verdadeira reforma do Estado que c0ntinua por fazer.

Na parte final da sua intervenção, José Gomes Ferreira insistiu no elevado custo da energia e nas distorções que, a seu ver, persistem no mercado da energia elétrica. Referiu também os preços dos combustíveis e das telecomunicações, todos acima da média.

O funcionamento da justiça, e especialmente da justiça económica, a falta de cooncorrência efetiva entre bancos e o facto de o Estado raramente recorrer a empréstimos diretos dos particulares ao Estado (também inutilizados pelos bancos) foram os tópicos finais da intervenção de José Gomes Ferreira.”A banca está para o sistema financeiro como os taxistas estão para a Uber” – concluiu José Gomes Ferreira. Ora os governos ainda são eleitos. Os bancos não.

Como nota positiva, o orador considerou que a solução não está numa democracia musculada. Está numa democracia transparente e com cidadania ativa. O maior desafio dos nossos tempos é resolver todos os constrangimentos em democracia e em diálogo.